João Almeida, Pintor
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João Almeida, Pintor

 

Aos 91 anos o Sr. João Almeida pinta com a dificuldade de uma visão e movimentos não tão precisos como de outrora, mas com a determinação daquilo a que chama “a força de gostar”. Foi esta força que permitiu, desde que se aposentou quase aos 60 anos, manter-se sobranceiro a uma vida ativa entre a observação de detalhes e apontamentos que depois, profusamente, camada por camada, imprimia numa tela.

Pinta de acordo com o estado de espírito, oportunidades e desafios. São imagens que estão guardadas na memória e outros relances, recortes de jornal ou diapositivos que depois reproduz e dá cor, usando aguarela, na maior parte das vezes, ainda que seja igualmente eficiente com tintas a óleo.

Para a sua arte trouxe muito do que aprendeu na vida profissional e dos anos de formação na Escola Industrial Faria Guimarães, onde cursou Desenho, à noite, uma vez que trabalhava, durante o dia, numa litografia. Foi conquistando, pelo gosto e pelas muitas oportunidades de contacto com vários mestres, a experiência que sempre recompensa os mais dedicados, primeiro quando conseguiu o posto de trabalho que ambicionava, desenhista, e mais tarde quando, juntamente com outros colegas de profissão empreendeu motivado pela sua própria unidade litográfica. Relembra agora os trabalhos feitos para as empresas de vinho do Porto e agradecido por ter tido sempre muito trabalho, até por conta própria.

Na retrospetiva da sua obra, agora exposta na receção do Equipamento Social Salvador Brandão, podemos observar uma diversidade de técnicas e motivos. Marcadamente naturalista, na medida em que as paisagens, objetos e pessoas são retratadas no seu ambiente natural, despretensioso de qualquer simbolismo ainda que produza uma impressão sentimental em cada observador, pois a fruição é sempre algo muito subjetivo e de acordo com a natureza de cada um de nós.

 

Até então todas estas obras ornamentavam as paredes da sua galeria em casa, longe do olhar do público. Vendeu um único quadro, quando se deslocou ao antigo mercado de Gaia com um pequeno moinho pintado para saber quanto custaria a moldura. Aí, uma das empregadas propôs a compra; inicialmente o Sr. João disse que não vendia, mas depois, convencido pela esposa aceitou vende-lo.

Ofereceu também um retrato que fez do Presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes, com as bandeiras da União Europeia, nacional, do partido, do município e da freguesia de Vilar de Paraíso. A 12 de março de 1998, o Jornal de Gaia noticiava a oferta do quadro ao Presidente numa visita às freguesias de Arcozelo e Vilar de Paraíso.

Relembra com carinho algumas das obras que lhe deram mais gosto a pintar; a reprodução do Palácio Nacional da Pena, em Sintra, a partir de uma pequena fotografia, reproduzindo em escala através do traçado de uma bissetriz, como aliás sempre o fizera quando necessitava de aumentar a escala, e demorando-se pela cor da vegetação entre as arcadas e os muros de pedra.

Outros temas evidenciam crónicas e costumes de outros locais, como Lisboa, as casas saloias da região de Alcobaça e algumas regiões de Espanha.

 

 

 

 

 

 

E se a pintura foi aprendida de forma autodidata recuperamos também alguns originais de desenho, fazendo jus à sua formação académica, guardados onde pudesse sem ter em conta o potencial, tais como os estudos de figuras e detalhes humanos, que com o seu preciosismo anatómico valeram-lhe o segundo prémio num concurso organizado pelo Lar do Comércio, na Maia.

 

 

 

 

Desde que ingressou no Centro de Dia do Equipamento Social Salvador Brandão, em junho de 2017, já pintou 7 desenhos, um deles foi trocado por um abraço, aquando da visita do Grupo de Danças da Polónia no momento em que foram trocadas lembranças. E embora acuse a dificuldade de uma mão pouco firme para a pintura, na verdade, as pevides de uma melancia deixaram-se desenhar e pintar na sua melhor forma num dos seus últimos trabalho, sente mais firmeza quando segura o pincel do que quando faz qualquer outra atividade, acrescenta.

 

 

Nunca fez nenhuma exposição. Foi surpreendido quando a Animadora Sociocultural do Equipamento, Sónia Magalhães, o incentivou a fazer a exposição. Comovido, deu-se a conhecer e tem recebido muitos elogios ao trabalho que desenvolveu ao longo da vida.

No “cantinho do João” pinta por gosto, animado por outros colegas do Centro de Dia que lhe pedem incessantemente que pinte para eles, ainda que não tenha capacidade de se comprometer com todos.