“À conversa com… Artur de Almeida Leite”
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“À conversa com… Artur de Almeida Leite”

Reprodução da entrevista concedida pelo Provedor Artur de Almeida Leite ao Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, n.º 85, dezembro de 2017, 14.º volume.

Artur de Almeida Leite é, desde dezembro de 2014, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova de Gaia, instituição de referência no concelho. Foi com ele que falámos para saber um pouco mais sobre si próprio e os desafios que se colocam à instituição a que preside.

 

ACAG: Qual é o papel do provedor da Santa casa da Misericórdia de Vila Nova de Gaia?

AAL: É, se assim se pode dizer, o leader de uma equipa de várias pessoas, com formações e experiencias diferentes, que decide no nível mais elevado, sobre a administração de uma Instituição que tem cerca de 320 colaboradores, um orçamento anual de mais de 8 000 000 de euros, um conjunto de quase quinhentas pessoas na dita 3ª idade, a quem prestamos serviços e a que se junta um outro conjunto de perto de duzentas crianças na área da educação.

Tem, ainda, funções em duas áreas que concorrem para atividades ditas lucrativas, mas cujos resultados, mercê de políticas impostas pelo Estado na definição de preços (farmácia social e clínica de medicina física e de reabilitação), praticamente não representam significativas mais-valias na gestão económica da Santa Casa da Misericórdia de Gaia ou de outra qualquer organização similar.

Assume ainda a responsabilidade, partilhada no topo, pelo funcionamento dos serviços de toda a natureza, nomeadamente na área social que é de facto o core business da atividade de uma Casa como a nossa, assegurando a ligação com a Direção Geral e os serviços que daí dimanam.

 

ACAG: Qual é a missão da Instituição?

AAL: Assegurar a boa prática das 14 obras da Misericórdia, garantindo o princípio de que nunca nos esqueceremos nem nos afastaremos de cuidar os mais pobres e desprotegidos da sociedade, que são aqueles que, muitas vezes, com poucos recursos económicos, corroídos pela doença e empurrados pela solidão, são acolhidos nas Santas Casas das Misericórdias, por não terem muitas vezes, outra saída.

Registamos, em todo o caso, que há, felizmente, muitas famílias onde esta missão é claramente de apoio ao envelhecimento, fomentado da forma mais saudável que seja possível pelos meios colocados ao dispor desta missão, como sejam a animação (da mente e do corpo) além de outras práticas que prolongam o mais possível as boas condições da quase sempre anterior boa vida ativa.

 

ACAG: Sente que no concelho cada vez mais pessoas procuram o auxílio da Santa Casa?

AAL: Infelizmente, assim é. É de tal forma que, hoje, não temos quaisquer vagas nos serviços que colocamos ao dispor dos mais velhos, e se lá vai aparecendo uma ou outra vaga, isso deve-se à lei da vida em que uns nascem e outros … partem.

Infelizmente, também nesta matéria, temos muitas limitações, umas impostas pelo próprio Estado, que não nos permite alargar o número de pessoas a quem podíamos responder, e outras porque, não dispondo de recursos económicos para pagar o custo dos serviços de outras soluções, acabam por ficar presos a longas listas de espera. Para além disso, as comparticipações das famílias por tudo o que são as condições de vida das mesmas (baixos rendimentos, porque os salários são o que são …), impedem que os carenciados, nomeadamente os mais idosos e de menor rendimento das pensões, tenham acesso a soluções alternativas à rede estatal, seja nas Santas Casas ou noutras IPSS.

 

ACAG:  A Misericórdia tem, ou pensamos que tem, um bom património…

AAL: De facto algumas Misericórdias têm fama de possuírem um património que lhes permite exercer a ação social que é a sua missão.

Foquemo-nos na Misericórdia de Gaia para referir que os três maiores legados (António Almeida da Costa, José Tavares Bastos e Salvador Brandão) a par de dois outros, menos significativos, trouxeram os ‘palacetes’, onde estão instalados os nossos lares, e, ainda, casas, armazéns, terrenos, etc. Um património com praticamente um século de construção, embora cedido em períodos diferentes da vida da nossa Misericórdia, com muitas carências na sua manutenção, que tem implicado custos cada vez maiores para adaptar às novas regras legislativas (país pobre, mas com regras com as quais concordamos, mas que nem sempre são fáceis de cumprir … e todos sabemos o que é fazer obras em prédios muito antigos, com layouts não compatíveis com as atuais necessidades e obrigações).

No que aos prédios de rendimento diz respeito, o estado desses mesmos legados implica uma atenção cuidada e requalificação regular. Pois bem, em que estado encontramos, hoje, esses prédios? Muitos deles devolutos (o estado de habitabilidade impede a sua utilização), porque a não manutenção atempada, ao longo dos tempos, originou o abandono de muitos inquilinos. O mandato desta Mesa Administrativa encontrou cerca de quatro dezenas de andares/frações devolutos e uma outra quantidade, ainda superior, de prédios ou frações que requerem uma intervenção, maior ou menor. Ora isto é tarefa demasiada para um só mandato e, por isso, outras Mesas se seguirão com esta prioridade, julgamos nós, neste tipo de intervenção.

É evidente que com menor rendimento do património do que o seu potencial, pouco se pode investir nos nossos equipamentos e na sua recuperação, de forma a tornar mais confortável a estadia dos nossos utilizadores.

O que fizemos e vamos continuar a fazer: temos recorrido a todos os meios (fundos do IHRU, por exemplo) elaborando projetos para fazer essas obras nos mais variados locais, nomeadamente, naqueles onde há muita procura. Já temos êxito nos vários casos onde já interviemos, total ou parcialmente, e continuamos a investir para aumentar o rendimento.

No caso dos grandes equipamentos, mantemos a expectativa de que o ano de 2018, pela concretização e provável comercialização, mesmo que parcial, do grande projeto denominado loteamento da Quinta das Devesas, cuja conclusão se deveu a esta Mesa Administrativa, nos aporte os recursos financeiros de que tanto carecemos para melhorar as condições dos nossos quatro lares atraindo pessoas com mais rendimentos.

 

ACAG:  Quem é o Artur Leite?

AAL: Desde que iniciou a sua vida laboral, esteve sempre presente no sector dos ‘Seguros’, onde construiu uma carreira ao longo de mais de 45 anos. Porém, envolvido na ação social da Misericórdia de Gaia, a partir do momento em que as suas filhas passaram a frequentar a creche da Misericórdia (a mais velha, Cláudia, com um mês de idade, na altura em que os funcionários do Estado só dispunham de trinta dias para recuperar do parto, após o que deveriam regressar ao trabalho …) e chamado, em 1976, no primeiro mandato do Sr. Prof. Pires Veloso, a integrar a Mesa Administrativa de então. Sempre ligado e sensibilizado para a ação social, que sempre procurei manter e desenvolver, voltei em 2009 à Mesa Administrativa, a convite do Sr. Provedor de então.

Estou até hoje e com vontade de colaborar enquanto a saúde e …o raciocínio mo permitam.

ACAG:  Para finalizar, há alguma mensagem que pretenda deixar?

AAL: Há, de facto, e pretendo chamar a atenção para esta obra extraordinária que são as Santas Casas e no caso vertente a Misericórdia de Gaia.

Não conheço ninguém (há sempre exceções …), que experimentando uma ligação à nossa Misericórdia, não permaneça para a vida ligado, também emocionalmente, a esta obra extraordinária e à tentativa de fazer bem sem olhar a quem. O que desejaria é que aqueles que me leiam, se juntem a este movimento tornando-se Irmãos da Santa Casa e dando de si algum do seu tempo para esta obra fantástica de amor pelo próximo. Se conseguir sensibilizar algum de vós, já agradecerei e muito à Associação Cultural Amigos de Gaia o terem permitido que me expressasse.